sábado, 20 de abril de 2013

IV DOMINGO DA PÁSCOA


"As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem". Jo 10,27

"Era uma vez um visitante que percorreu a Síria e encontrou três pastores de ovelhas que davam água a seu rebanho junto a um  poço.

As ovelhas estavam todas misturadas e um estranho poderia pensar que se tratava de um único rebanho. Daqui a pouco, um dos pastores se levantou e chamou "Mene - Ah", que em árabe, significa vem comigo. Imediatamente umas trinta ovelhas se separaram do  grupo e seguiram seu pastor morro acima.

Também o segundo pastor afastou-se um pouco e exclamou o seu "Mene - Ah" e seguiu com o seu rebanho. Admirado, o viajante perguntou ao pastor que tinha ficado. Suas ovelhas me seguiriam se eu as chamasse? Por que você não experimenta? Respondeu ele. E se eu usasse sua capa e seu cajado? Não achas que elas pensariam que eu sou você?

Sem nada dizer, o pastor ofereceu ao homem sua capa e seu cajado, e ficou observando com um sorriso nos lábios como o estranho chamava o seu "Mene - Ah", "Mene - Ah". Mas as ovelhas não lhe deram qualquer atenção. 

O pastor então explicou: Elas não seguiriam a nenhum outro. Só a ovelha doente segue a um estranho".

Gostaria ler essa estória pensando não somente nos pastores que estão nos campos da religião, mas também, estender o entendimento para as tantas lideranças que estão nos campos políticos, sociais, jurídicos, para as lideranças que cuidam de gente.

Nós sabemos como sofrem as ovelhas nas filas dos órgãos  públicos,  como são tratadas, mal tratadas, às vezes humilhadas. Como o direito que já lhe foi assegurado, precisa ser brigado, para ser conquistado. Neste caso os termos, assegurado e  conquistado divergem.

Ninguém deseja que este povo sofra nas mãos de pastores estranhos, mas quando o sofrimento se dá  no campo religioso, dentro da Igreja, dói mais.

"Vós não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a curais; a transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais; a todas tratai com violência e dureza" Ez. 34,4

Talvez um dos grandes perigos porque passam tantas e tantas ovelhas nos campos atuais, seja porque temos de mais pastores de capas e de cajados, mas de pouca entrega, de pouca doação e de pouco amor.

Todos sabem que capa é aquilo que envolve ou cobre alguma coisa. Existem muitos líderes envolvidos com capas de pastores, têm a aparência de pastores, mas com grande dificuldade de dá sua vida, de morrer pelas ovelhas.

Hoje são muitos "pastores", são muitas vozes, são muitos sons e são  muitos convites vindos na direção das nossas ovelhas, dos nossos jovens, dos nossos homens e mulheres. São muitos os apelos para que nossa gente aceite entrar nos redis hodiernos. E aceitam, e entram, e se deixam seduzir, e se deixam arrastar, e depois choram, e depois sofrem e depois morrem.

E por que entraram? Porque estavam desintegradas, desarmonizadas, desvinculadas, não eram melhores, nem piores, só estavam doentes.  "Ao estranho segue a ovelha doente". E uma pessoa doente, é alguém frágil, vulnerável, seduzível, capaz de ceder a qualquer grito e a qualquer voz, mesmo que sejam gritos e vozes para o sofrimento e para a dor.

O bom seria que nossas ovelhas à semelhança das ovelhas deste conto, dissessem não a certos convites e a certos apelos, para dizerem sim à sua felicidade, à sua alegria e à sua paz.










domingo, 14 de abril de 2013

III DOMINGO DE PÁSCOA


"Pedro tu me amas? Sim, Senhor, Tu sabes que eu te amo, apascenta minhas ovelhas".

Meus irmãos, é isso, simples. Ignorantes, falhos, cheios de defeitos e de fragilidades, mas ele, nos chamando, nos conduzindo, acreditando na nossa santidade. Mas claro com a condição de que  o amemos. Pedro tu me amas? 

Aqui cabe bem um trecho daquela música, "numa noite de fadiga, sobre o barco em alto mar...". Mas a fadiga aqui se relaciona ao insucesso e ao fracasso da pescaria que acabam de fazer. Os pescadores sabem como é desgastante e triste, depois de horas com as redes, as cordas, os anzóis na água, puxar e não pescar nada. Sem falar do frio ou do sol sofridos, dependendo do tempo e do horário da pescaria. 

Então, como vão as vossas pescarias? É possível que à semelhança dos pescadores deste evangelho, sua noite tenha sido de muito cansaço, frio e tribulações, mas de pouco peixes. É possível também que à semelhança daqueles pescadores seu desejo agora é desistir, desanimar, juntar as redes e voltar para casa, mesmo não levando nada. Provavelmente deve ter passado pela sua cabeça o pensamento de que não vale a pena lutar, insistir nessas águas de pouco peixes.

Não desistam, não desanimem, não enfraqueçam, vocês não são quaisquer pescadores, vocês são pescadores do Mestre da Galileia, vocês são pescadores da barca de Jesus. E pescador de Jesus que se presa não desiste, não desanima, ao contrário, olha pro tempo, encara o vento, arma o pano e vai, vai lançar as redes de novo.

Todos sabem dos obstáculos que existem no mar, que não são só a ausência de peixes em alguns pontos e momentos, mas também as pedras, os paus, os capins que às vezes engancham na rede e nas cordas e atrapalham toda a pesca.

Lançar as redes de novo é lançar a palavra, é lançar o evangelho em mentes e corações nem sempre dispostos a acolhê-los e a recebê-los, uma vez que estão abarrotados com as pedras, os paus e os capins dos tempos atuais. 

Lançar as redes de novo é abraçar o Mistério Pascal, fazendo esse caminho de libertação e salvação que tem como consequência a Cruz de Jesus. Caminho esse que não será feito sem abandonos, angústias e decepções. Pai! Por que me abandonaste? Gritou Jesus certa vez.

É possível que a raiva, o ressentimento, o cansaço, o desânimo, até a própria vingança queiram tomar parte nessa viagem. É possível que esses sentimentos se aproveitem da nossa fragilidade como se aproveitou da fragilidade Pedro e a gente queira construir um projeto só nosso, um projeto que não exija despojamento, desprendimento, sofrimento. 

Sofrimento de amar,  de acolher, de abraçar, aquele irmão, aquela irmã que mais te matou, que mais te machucou. 

Mas é assim mesmo. Um dia alguém falou: "a caminhada é feita de calvário e de ressurreição". A caminhada é feita de noites e de dias, de redes cheias e de redes vazias, de morte e de vida. E tudo isso podendo acontecer numa só hora, num só encontro, em um só dia.











sábado, 6 de abril de 2013

II DOMINGO DE PÁSCOA


"Quando João escreve (por volta do ano 95 depois de Cristo), Tomé já havia morrido há muito tempo; portanto, o episódio não é narrado para diminuir este apóstolo. Se são sublinhados com tanta insistência os problemas sobre a fé que ele teve, o motivo é  outro, e é o seguinte: o evangelista quer responder às perguntas e às objeções que os cristãos das suas comunidades levantam com uma teimosa insistência. Trata-se de cristãos da terceira geração, de pessoas que não viram o Senhor. Muitos deles nem sequer conheceram um dos apóstolos. Têm dificuldade de crer, debatem-se em meio a muitas dúvidas, gostariam de ver, tocar, se o Senhor de fato ressuscitou". Fernando Armellini - Celebrando a Palavra.

Caríssimos irmãos as dúvidas pelas quais passam os primeiros cristãos, são praticamente as mesmas de todos os apóstolos, e, porque não dizer, continuam sendo as mesmas de muitos irmãos de agora.

A fé é um caminho que se faz, caminho nem sempre curto e rápido, mas às vezes longo, lento e difícil. Isto se percebeu nas dificuldades que os apóstolos tiveram de acreditar nos episódios das últimas horas, a saber, a Morte e a Ressurreição de Jesus. A tristeza que os envolvia, o medo que os cobria eram sinais dessa fé escassa.

"Tomé chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe tudo depois. 'Vimos o Senhor'! Mas Tomé disse-lhes: Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos, e não puser a mão no seu lado, não acreditarei". Jo. 20, 24 - 25.

Não sei qual o alcance da compreensão e da fé de muitos irmãos nossos, mas ao que se vê principalmente através dos Meios de Comunicação Social, o nosso mundo cristão, onde conjuga católicos e evangélicos, está cheio de Tomés ou de irmãos semelhantes aos da comunidade de São João. Irmãos que querem ver, tocar, sentir, para poder crer. E demonstram isso pegando na toalha suada do pastor, na imagem daquele santo ou daquela santa, naquele copo de água posto sobre a Televisão.

Não sabemos, mas ao que estamos vendo Tomé devia ter sido um homem com grandes dificuldades no quesito fé. E São João lembrou desse homem para servir de figura quando questionado em sua própria comunidade.

Jamais, nem eles, nem nós conseguiremos tocar, apalpar o ressuscitado, se  o quisermos, tem que ser mesmo através da fé. Se é através da fé, logo, deduzimos que aquele Jesus que andava, falava, brigava, comia, bebia, fazia milagres, nunca disse: "Põe o teu dedo e olha as minhas mãos..." Jo. 20, 27a. Mas disse, e diz em toda Eucaristia que acontece a cada domingo. Quem tem a coragem de deixar suas casas, seus afazeres, seus programas e seus prazeres para ir à Igreja no dia do Senhor, esse ouvirá do Presidente da Celebração - "A Paz esteja convosco". E nesta hora este irmão, esta irmã está tendo um encontro com o Cristo Ressuscitado.  E, não, como queriam as comunidades de São João, e como muitos de nós ainda hoje querem.