sábado, 19 de abril de 2014

HOMILIA DE SÁBADO SANTO

Caríssimos irmãos, comecemos esta noite dando um abraço forte no irmão que está ao nosso lado e desejando-o Feliz Páscoa!!

Conforme relatos litúrgicos, chegamos à noite mais esperada de todo o ano. A mãe de todas as noites. A noite em que o pecado, o mal, o ódio e até a própria morte foram vencidos.

Como vimos o sábado chegou ao fim. Esse dia que no Antigo Testamento, na antiga lei, foi dia de descanso e repouso, hoje para nós, foi dia de angústia, dor, medo e desesperança.

            Desesperança, porque a comunidade ainda não acreditou, ainda não aceitou, ainda não assimilou a morte de Cristo, não como uma derrota, um fracasso, mas como uma vitória.

            O dia já amanheceu, o dia já raiou, o galo já cantou, mas para aqueles corações sem fé, tudo ainda era noite, tudo ainda era trevas, tudo ainda era dúvidas e escuridões.

            Meus irmãos ainda hoje, encontramos muitas pessoas, que infelizmente não conseguem amanhecer, suas vidas são noites sem fim. Situações trazidas do seu passado e insistentes no seu presente as fazem tristes, amargas, ofensivas. Ou seja, não saíram ainda do túmulo, sua pedra não foi ainda movida, não foi tirada.

            Meus irmãos como o povo que hoje saiu do Egito, nós também devemos sair. O Papa Francisco fala de uma Igreja em saída. Fala de uma Igreja enlameada, fala de uma Igreja acidentada. Os grupos têm que sair, os ministros têm que sair, as pastorais tem que sair, a comunidade inteira tem que sair, o padre tem que sair.

            Neste um ano de experiência pastoral aqui em água Doce, não têm sido pouco os encontros, cursos, assembleias, que temos propostos e realizados. No entanto, percebemos, como a participação dos irmãos principalmente da sede tem deixado a desejar, tem sido fraca. E o que considero mais preocupante, irmãos que estão nos grupos, pastorais e movimentos.

            Eu tenho me sentido satisfeito com o número de participantes em todos eles, mas a grande força vem das comunidades do interior. Com isso, não quero apontar o dedo para rumo, direção e ninguém. Mas quero sim enfatizar, que não dá mais pra sermos uma Igreja que se contenta horas e horas fazendo leituras e rezando terços, ou outras formas de oração, e até a própria missa, enquanto lá fora, nas praças, nos bairros, nas ruas, existe um mundo de jovens, crianças, idosos à nossa espera. Jovens, crianças, idosos que não lhe faltam, só oração, mas falta também pão, casa, saúde, educação, falta vida, uma palavra amiga.

            No evangelho, um anjo abriu o sepulcro. Hoje, agora, somos nós, que temos que abrir os sepulcros, somos nós que temos que remover todas as formas de pedras impostas pelo sistema econômico, que deixa à margem das políticas sociais, crianças, jovens e velhos, e os obriga a sair de suas casas, arriscando-se às constantes formas de escravidões nos serviços humilhantes a que são submetidos nas grandes cidades.

            Somos nós que como cristãos, precisamos também ser humanos, precisamos ser sensíveis, precisamos sentir a dor do outro, precisamos como diz o Papa Francisco, voltar a aprender a chorar. Mas, esse chorar, mas que sentimentos e lágrimas, é propor aos nossos governantes, políticas de inclusão social, políticas para a juventude, para os idosos, para os negros, os índios, de modo que não seja preciso que se morra para um dia se celebrar a Páscoa do Senhor, mas que ela comece já, na promoção de vida plena para todos, e a morte seja apenas seu desdobramento e sua expansão.

           

 

           

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