Hoje, quem acordou mais cedo
e pôde acompanhar um pouco a homilia do Santo Padre, o Papa Francisco, na Praça
da Sé, em Roma, assistia a um homem simples, que com palavras simples, mas,
tocantes discorria sobre o Evangelho da Paixão de Jesus, num discurso que o
repórter disse parecer um improviso, de tão simples que era. Olhando no rosto,
no semblante daquela multidão imensa na Praça de São Pedro, o Papa se
perguntava e ao mesmo tempo respondia.
Quem sou eu?
Uma pergunta que pode se
desdobrar em outras tão semelhantes, como: Com quem pareço? De que lado estou?
Em que grupo estou?
Eu sou do grupo daqueles que
satirizam, galhofam e zombam de idosos, embriagados, homossexuais, negros,
índios, como os soldados que satirizam, galhofam e zombam Jesus, depois de
tanto humilhá-lo e fazê-lo sofrer com aquela pesada cruz? Eu sou do grupo
daquelas mulheres, eu me pareço com elas, que não mais se importando se a
violência que levou seu mestre à morte lhes atinja, então, estão ali, firmes,
resolutas, acompanhando de perto e mostrando toda a sua solidariedade ao seu
Senhor?
Eu sou aquele Sirineu, que mesmo
cansado dos meus trabalhos das minhas labutas, ainda encontro forças para ajudar
Cristo carregar a Cruz? Ou eu sou Pilatos que com medo de assumir compromissos,
responsabilidades no seio da comunidade, às vezes tendo que desgostar alguns
sentimentos, prefiro lavar minhas mãos, ser omisso, como se os problemas de
fome, de falta de saúde, educação, moradia, trabalhos, vida plena, não é
responsabilidade minha, mas tarefa só dos outros, dos governos, por exemplo?
Meus irmãos, às vezes a
gente pensa que celebrar este dia, e, não só este dia, mas todo esse tempo
litúrgico que começou na quaresma e se estende até a Páscoa, seja
tomar nossa liturgia diária, nossa Bíblia, nossos cantos, nosso terço, e viver
momentos profundos de piedade e oração.
Mas qual o sentido da nossa
Eucaristia, tanto a desse dia como a de todos os dias e tempos, se não se
relaciona, se não se impregna, se não se agarra às situações concretas da vida
do nosso povo?
Qual o sentido de uma
liturgia e de um culto, que se voltam tão somente para dentro do orante, que se
escondem nos porões dos seus sentimentos, mas não vêm, tantos jovens, homens,
mulheres, partindo todos os dias das nossas cidades para os grandes centros
arriscando-se a situações de misérias, escravidões e exclusões?
Na Sagrada Escritura, lemos
textos nos quais, nosso Senhor rejeita orações e sacrifícios, quando esses não
se deixam carregar de misericórdia e compaixão. E as nossas orações, missas e
celebrações se tornam igualmente inócuas, ocas, vazias, e sem sentido se não
levam em conta a situação de fome, miséria, e a falta de saneamento básico que
castigam tanto nossas cidades. Tornam-se ocas e vazias, se não levam em conta o meio
ambiente, escandalosamente explorado, agredido e machucado pelos ditos
“grandes” projetos de monocultura de soja e eucalipto.
Está na hora de sairmos do
bla, blá, bla, da teoria, do discurso fácil, das orações longas, intimistas,
piedosas, mas desencarnadas, que não transformam, não renovam e não convertem para
justiça, para a solidariedade e para o amor. Está na hora de propormos, mas que
propormos, sermos uma Igreja que como Jesus, silencia diante dos Pilatos de
hoje, não por medo ou covardia, mas, porque, não comunga e não concorda com sua
tirania, sua covardia e suas maldades. Sermos uma Igreja que seguindo o seu
mestre, não veste a roupa do sistema político e econômico, que empobrece, acorrenta e escraviza
tantos jovens, tantos homens e mulheres.
Naquele tempo a esponja dada
com vinagre servia para estender o tempo de vida do crucificado, não por amor a
ele, mas para curtirem mais a sua dor e seu sofrimento. Nessas horas existem
muitos crucificados nas nossas periferias das nossas cidades, pela fome, alguns
pela miséria extrema, outros pela falta de saúde e educação. É urgente que
agora levemos não mais esponjas ensopadas, mas levemos acima de tudo a esperança
de que um mundo de justiça, de liberdade e de paz, é possível.
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