quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

AINDA SOBRE A ORAÇÃO NO GETSÊMANI
"Judeus e romanos preparam a morte de Jesus. Eles já se haviam preparado muito antes que Jesus nascesse; o imperialismo romano e o farisaismo, combinados com o senso político dos anciãos e dos sacerdotes, são disposições que requerem muito tempo e continuidade. Dentro do plano de Deus, essa história e a pessoa de Jesus deviam ser confrontadas um dia; do encontro sairia a morte de Jesus, e desta a origem de um povo.
No jardim do Getsêmani Jesus prepara para assumir sua missão. Ainda pode fugir, esconder-se até que o perigo imediato se afaste. Ainda pode ficar calado, não chamar a atenção, permanecer num lugar tranquilo com seus discípulos, deixar de desafiar as autoridades. Tudo tem que ser decidido nessa vigília.
Qual o assunto dessa vigília? Passar do anúncio abstrato à iminência da realização.
Jesus sabia pelos profetas que a sua missão o levaria a um choque com as autoridades, à perseguição e a uma morte vioenta: a morte do servo de Deus em Isaías.
O momento que se aproxima é o momento em que Jesus será chamado a dar o último passo rumo ao sacrifício. Terá de dar o passo final, do qual já não é mais possível voltar atrás. No jardim ainda é possível. Depois já não será mais.
Jesus descobre que a hora dos profetas chegou. Ele vai ter que pronunciar as palavras que o condenarão, vai dar este passo para o abismo, depois do qual não há mais regresso possível. Esta é a oração da vigília. Seu objeto consiste nesta disposição do homem em dar o passo irreversível, deixando definitivamente uma vida interrompida e cortada e entrando numa fase nova, incerta, desconhecida. Na vigília a pessoa precisa realizar a interrupção de sua vida, deixar o desenrolar da vida anterior para o passado e enfrentar a novidade, olhar para aquilo que vem, com todas as energias. Isto é conversão.
A pessoa só assume sua missão depois de um combate interior, um combate entre as duas pessoas que lutam entre si: entre a pessoa do passado que queria continuar e a pessoa do futuro que precisa eliminar a anterior. Jesus teve que passar por este combate".
Pe. José Comblin

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