A liturgia da palavra deste domingo foi marcada pela dura realidade com que viva um leproso antes de Jesus e no seu tempo. Conforme escutamos o Levítico, uma pessoa, logo que se descobrisse com alguma mancha, ou inflamação no corpo, devia se dirigir ao sacerdote. O sacerdote, como um dos representantes da lei, tinha o encargo de declarar a pureza ou a impureza de uma pessoa. Sendo esta impura, devia assumir as seguintes regras: Retirar-se para fora da cidade, deixar cabelo e baba crescerem, vestir-se maltrapilhamente e ao cruzar com alguém, gritar: eu sou impuro, eu sou impuro. Claro, para que essa pessoa evitasse aproximar-se. "No Antigo testamento havia tribos em que uma pessoa ao morrer de lepra devia ser enterrada distante dos outros mortos". 1. Fernando Armellini (Celebrando a Palavra).Vejam o absurdo. Vejam como a doença colocava dois grandes fardos por sobre a pessoa. O fardo físico, aquilo que ela estragava, corrompia e feria, no corpo da pessoa ou em seus membros, e o fardo do ponto de vista do preconceito, da discrimação, que doía muito mais que aprópria lepra, porque feria o coração, a alma.
Cena contrária temos no Evangelho. Alí volta a figura de um leproso, que diferente do que ocorria no Antigo Testamento, onde este se colocava à distância, alí chega bem próximo de Jesus, se ajoelha e proclama: "Se queres tens o poder de purificar-me". É interessante esse purifificar-me, e não curar-me, porque, traduz não só o desejo de uma cura física, mas o retorno, a recondução a uma vida dígna, ao seio da sociedade, que, não a lepra, mas o preconceito o arrancou. Mas importante que o ato do leproso, foi a atitude de Jesus, São Marcos falou que ele cheio de compaixão, extamente a compaixão que faltou no sacerdote, disse: "eu quero, fica curado". Essa rapidez, não é por acaso, é a urgência que tem Jesus de implantar um reino onde os pobres possam ter dignidade, possam ouvir e serem ouvidos, possam reconquistar a sua sua vida, e junto a essa, sua dignidade. Mas também, esse gesto, não é só de Jesus, é também do Pai. Na verdade o que Jesus faz, é levar aquelas mentes e aqueles corações, que não admitiam um Deus humano e próximo, a entenderem que Deus agora não é mais aquele carrasco, castigador, distante, rígido que fica lá nas alturas. Ao contrário, Deus está bem próximo, junto ao seu povo, se envolvendo com suas lutas, seus sofrimentos, suas lepras, sem medo de se contaminar.
Não conte nada aninguém. Por quê? Se o homem ia dizer que ele era o Messias? No Antigo Testamento, só sabemos de dois casos de cura de lepra: "A cura do Sírio Naamã, feita pelo Profeta Eliseu, e a cura da irmã de Moisés, feita por Moisés". 2. Fernando Armellini (Celebrando a Palavra). Por ser um mal terrível, havia aconcepção de que quem dominasse tal doença, este era o Messias. E por que Jesus proíbe, se ele cura a tal doença e é o Messias? Exatamente pelas razões que já conhecemos. O povo via nele um Messias valente, poderoso, político, guerreiro. Mas ele ao contrário, é fraco, pobre, derrotado, humilhado, morto numa cruz como os piores do seu tempo. Esse Messias eles não concebiam, não admitiam, não aceitavam, portanto, melhor, não falar de um Messias que ele não é.
Dito isto, volto a pensar na atitude de Jesus, que não deu bolas para a lei, curou o leproso, devolveu a ele aquilo que o preconceito havia tirado, sua dignidade e o direito de ser pessoa como todas as outras. Fico muitas vezes pensando, se não está na hora da gente olhar para dentro da nossa Igreja e observar como estamos apresentando as normas atuais para aqueles que carregam algum de tipo de "enfremidade". Se nossa Igreja se enche de compaixão como fez Jesus que acolhe, que abraça, que se mistura, sem se importar para o que a sociedade hipócrita vai falar, ou se ao contrário, reproduz o velho sistema, aquele mesmo que o sacerdote representava, e manda os pobres, os "impuros" embora, porque não cabem nas suas normas e nas suas regras.
É fácil apontar o dedo para a lepra, para o defeito do outro e dizer que ele não pode. Difícil é a gente assumir, que também temos lepras, embora ocultas, o que é pior. Mas agir com misericórdia e compaixão como fez Jesus. A Igreja deve batalhar todo dia para isso. Caso contrário, se distancia do seu Senhor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário