domingo, 17 de fevereiro de 2013

HOMILIA I DOMINGO DA QUARESMA


Meus irmãos como sempre, a liturgia deste domingo, o primeiro da quaresma, apresenta as três tentações vivenciadas por Jesus no deserto.

Olhando as palavras e as letras dessas palavras contidas nesse evangelho, tudo parece muito simples. Primeiro contemplamos o deserto, essa longa faixa de terra de pouca umidade, de pouca vegetação, de pouca água, de muitas rochas, de pouca vida.

Ao longe avistamos Jesus, sozinho, sentado, refletindo, meditando, rezando o desafio que está por vir, sua missão em Jerusalém.

Eis que então, aparece aquele ser, vindo não se sabe donde, com olhos vermelhos, chifres afiados, uma calda inquieta com um ferrão na ponta, e um espeto nas mãos. E num pulo para cá e noutro para lá,  começa a provocar e a desafiar Jesus.Você já observou que é mais ou menos essa a imagem que temos do diabo que aparece na cena desse evangelho?

Meus irmãos sem arrodeio digo para vocês, eu quisera encontrar no meu caminho centenas desses demônios,  centenas desses diabos, sei que eles não me fariam mal nenhum, eu não teria medo deles. Então, se eu, um pobre pecador, um ser humano frágil e limitado tenho essa segurança e essa confiança em relação ao "diabo", porque Jesus o Filho de Deus, se deixaria dominar por um ser infinitamente inferior a ele, sem força e poder nenhum?

Meus irmãos sem arrodeio digo para vocês, eu quisera jamais encontrar, jamais saber que carrego dentro de mim uma legião de demônios, demônios que eu não vejo, que não conversam comigo, que não falam nada, porém, são muito mais perigosos, muitos mais sagazes, muito mais violentos, muito mais ousados que os demônios deste evangelho.

Uma questão me intriga bastante: Nos preocupamos demais com o demônio que figura neste evangelho, e nos preocupamos de menos com os demônios que estão dentro de nós.

Aí, nas bobagens que fazemos, nas falhas que cometemos, nas loucuras que nos envolvemos, achamos cômodo culpar o demônio de chifre e de rabo, e não culpamos a nós mesmos como atores e autores das nossas próprias cenas e dos nossos próprios erros.

Agora você pode está se perguntando e me perguntando: E todos os acontecimentos que são hoje narrados, a proposta de pão, a proposta de adoração, a proposta de poder? Como ficam? 

Não tenho dúvida que Jesus foi tentado, e não acho que ele foi tentado só porque carregava a natureza humana, não, ele foi tentado no seu conjunto de naturezas, não foi só uma banda de Jesus que foi tentada, não foi só um lado de Jesus que foi tentado, ele foi tentado por inteiro. Jesus incomodava o diabo por ser Jesus, por ser Deus, por ser divino e por ser humano. 

Agora seria interessante se analisar melhor, aprofundar melhor todo esse acontecimento. Numa das cenas Jesus é levado por Satanás ao templo de Jerusalém. Do local em que a tradição afirma que se deu a tentação até Jerusalém é longe, são quilômetros de distância. Como satanás levou Jesus até lá? O que teriam eles conversado ao longo do caminho? Satanás fala mesmo? Ou, conhecendo que essa tentação está na linha do poder, não teria ido Jesus ao templo, mas através do seu desejo, do seu pensamento, da sua vontade de deixar tudo, dado o peso que esse tudo lhe traria depois?

Se você você fosse enviada, enviado em missão à Africa ou a Ásia onde hoje morrem muitos cristãos, principalmente pelos muçulmanos, se você fosse para um a região onde você correria o risco de morrer, você não sentiria medo? Você poderia até ir, mas certamente pensamentos de desistência, de abandono do projeto passariam pela sua cabeça. A missão que esperava Jesus não era fácil, e certamente pensamentos, desejos, intuições, planos de voltar atrás passaram pela cabeça do Mestre. Jesus nunca foi homem de simular, de fazer de conta, de encenar. Ele sempre foi real, verdadeiro, coerente. Nesse sentido, ele teve no deserto sim, ele foi tentado sim. Mas, mais que um deserto geográfico de terra, de rocha  e de vegetação, vemos um local teológico e espiritual onde Jesus reza, reflete e decide, que apesar do que lhe espera em Jerusalém, o plano que o Pai pôs em suas mãos, plano de implantação do seu reino, reino de paz,  de justiça e de amor, será implantado, será cumprido, será inaugurado. Mas que um indivíduo de chifre e de rabo, Jesus se viu em algum momento com medo, fragilizado. Nessas horas refugiar-se no ter e no poder parece ser a melhor solução. Existe tentação mais sedutora, principalmente em momentos de grande fragilidade?

Penso que celebrar este primeiro domingo da Quaresma é reler este acontecimento não através das letras, mas através das figuras que aqui aparecem e do contexto em que as coisas estão se dando. Penso que celebrar este primeiro domingo da quaresma é olhar para esta cena e diante dos acontecimentos que se derem na nossa vida, culparmos menos o diabo, porque este não fala, mas culparmos a nós mesmos. Quando deixarmos de encontrar culpados para as nossas bobagens e assumirmos os nossos erros, estamos começando a acertar.


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