sábado, 26 de maio de 2012

HOMILIA DO DOMINGO DE PENTECOSTES

"Antes  de  ser  uma festa dos cristãos, Pentecostes foi festa dos judeus, e sua origem  se perde nas sombras do passado. Antes de se chamar assim, tinha  outros  nomes,  e era  uma festa agrícola. Em Êxodo 23,14-17   é  chamada de  Festa  da Colheita,  a  festa  dos primeiros feixes  de  trigo  colhidos. Em Êxodo 34,22 é chamada de Festa das Semanas. Por que  "festa das semanas"?  A  explicação  é dada pelo Levítico (23,15-21): calculavam-se 7 semanas a partir do inicio da colheita do trigo. 7 semanas = 49 dias. Com o tempo, ela perdeu sua ligação com a  vida  dos  agricultores,  recebeu o nome grego de Pentecostes e  se tormou  festa cívico-religiosa. No tempo de Jesus, celebrada  50 dias  apos a  Páscoa,  ela recordava o dia em que no Monte Sinai, Deus entregou as tábuas da Lei a Moisés. Os Atos dos Apóstolos fazem coincidir a vinda do Espírito Santo com a festa judaica de Pentecostes". Artigo Paróquia São Paulo apóstolo.

Caríssimos irmãos após esta pequena viagem histórica acerca da Festa de Pentecostes, cabe-nos agora refletir a implicância, a importância e o significado da mesma nas nossas vidas.

"De repente veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania. Então apareceram línguas, como de fogo  que se repartiram e pousaram sobre cada um deles".
Meus irmãos, não esqueçamos que na cena, primeiro veio um barulho de vento, depois apareceram línguas de fogo. O fogo lembra a sarça ardente no deserto quando Deus apareceu a Moisés, a sarça não se consumia, e a sarça ardia. A Sarça é Deus, o fogo é Deus ardendo de amor por nós, o fogo é Deus queimando-se de amor por nós. No deserto, durante a noite, Deus era uma coluna de fogo para clarear o caminho dos hebreus. E hoje ele continua sendo o mesmo fogo para clarear nossas noites, clarear nossas trevas, clarear nossas escuridões.

"Cheios de espanto e admiração diziam: Como é que nós os escutamos nossa própria língua? Nós que somos partos, medos, e elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judéia, da Capadócia..."

Quantas e quantas vezes esses versículos se tornaram motivos de discussão, dentro da nossa Igreja, devido o fenômeno das línguas estranhas. Certamente a discussão se dá, porque ficamos presos ao fato da linguagem . Porém, não é uma questão de linguagem, é uma questão de propósito, de referencial e de valor, é uma questão de comunhão de alma e de amor. Quem não compreende isto?

O importante é saber que agora o Pentecostes não é mais uma festa apenas dos judeus, mas é de todos; de medos, elamitas, de católicos, protestantes, de santos e pecadores, de rico e de pobre; o Pentecostes é de todos aqueles que sabem que precisam clarear suas noites, que precisam aquecer suas friezas, que precisam romper suas trevas.

"E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo".
A cena nos faz voltar ao gêneses, ao princípio da criação, quando Deus sopra nas narinas do homem, até então, barro, para fazê-lo sua imagem e semelhança, para fazê-lo gente, para fazê-lo homem.

Se voltarmos no tempo, e se contarmos de uns 30 anos para cá podemos observar quantos grupos, quantas pastorais, quantos movimentos da Igreja, até então, tão fortes, tão vibrantes, tão entusiasmados, na caminhada foram esfriando, foram perdendo o brilho, foram se acabando. Também da mesma época, quantas famílias, quantos casais, quantos jovens, quantos irmãos nossos até então entusiasmados, foram desanimando, foram se separando, foram desistindo e muitos mesmos, até morrendo.

É preciso um novo Pentecostes, é preciso um novo fogo abrasador, é preciso um sopro quente, um ar quente que entre pelas nossas narinas, e que penetre todo o nosso ser, que toque e  que transforme este homem encurvado, angustiado, desanimado e o faça alegre, entusiasmado e vibrante de novo.

Depois de tudo o que falamos, cabe ainda perguntar: o que significa mesmo o Pentecostes para nós? O Pentecostes nosso se resume às nossas liturgias e às nossas Celebrações? E o que pensar dos desempregados, das crianças abandonadas; o que pensar dos sem terra, sem teto; o que pensar dos que são neste instante desrespeitados nos seus direitos e agredidos na sua dignidade?


O nosso Pentecostes ficará devendo ao mundo, ficará devendo à vida, se se contentar apenas com os cantos e as orações feitas entre as quatro paredes da Igreja. Mas é preciso que ele aconteça para aqueles que vivem à margem da sociedade, que vivem a margem do direito e da dignidade. E eu concluo com a mesma conclusão da homilia da Vigília de Pentecostes. 


Hoje, certamente todas as paróquias estão celebrando este dia. Oxalá! Junto a toda a sua programação, não esqueçam de lembrar dos milhões e milhões de pobres, de desempregados, de moradores de rua, de moradores de viadutos, de bancos de praças, favelas e calçadas, abandonados por esta sociedade. E assim, a nossa celebração, a nossa liturgia, mas que uma celebração e uma liturgia, seja também um grito, uma denúncia profética contra o sistema econômico, capitalista, que mergulhado no projeto de ter mais, exclui pequenos e pobres, índios e negros, homens e mulheres,  pelos quatro cantos deste país; até que um momento, o fogo que acendeu o Círio pascal a 50 dias e que hoje se encontra, se mistura e se confunde com o fogo deste dia, o fogo do Espírito Santo, possam aquecer, possam esquentar, possam aliviar o frio, a dor e a fome desses irmãos, e assim o Pentecostes deste dia, o Pentecostes Litúrgico, o Pentecostes Espiritual, se traduza e se converta nas suas vidas, na vida desses irmãos, em Pentecostes de pão, em Pentecoste de alimento, em Pentecostes de direito, em Pentecostes de justiça em Pentecostes de vida e dignidade. AMÉM









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