Estas foram as primeiras palavras de Pedro ao entrar na Casa de Cornélio, quando este num gesto de saudação caiu ao seus pés e se prostrou.
Embora sendo um gesto de saudação, e já muito praticado entre os judeus e os fariseus, Pedro renega o gesto, porque não quer que o mesmo se estenda para este momento, uma vez que o Mestre sempre pediu humildade, simplicidade e serviço a todos, ao invés de honrarias e privilégios.
Num ambiente religioso em que os pagãos eram vistos com olhos de preconceitos, pessoas de má vida, que não mereciam a salvação, Pedro de forma solene diz que "Deus não faz distinção de pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença". Atos 10,34-35.
Tem hora que cabe perguntar: Nós que estamos mais envolvidos com os trabalhos da instituição, entendemos assim? Nós que constituímos grupos, movimentos e pastorais da Igreja, acreditamos nisto? Acreditamos que o Espírito Santo, Jesus Cristo não são propriedades de uns poucos privilegiados , santos e escolhidos, mas ele desce sobre todos, ele fala a todos, ele se mistura com todos, negros, índios, mulheres, pretos, brancos, ricos pobres, sem terra, com terra, homo afetivos, sem se importar com o que a sociedade hipócrita e farisaica acha e julga?
Tem hora que cabe perguntar: A Igreja enquanto Instituição tem se sentido livre, para entender, ler, traduzir o seu papel e a sua posição, não como núcleo fechado, redomado, trancado a sete chaves, mas capaz de se permitir a uma abertura maior para os leigos, não unicamente nos serviços litúrgicos do altar, que ainda são mínimos , escaços e limitados, mas ouví-los, escutá-los, saber o que eles sentem, pensam e têm a nos ensinar?
Tem hora que cabe perguntar: Como essa mãe, hoje é dia das mães, tem tratado aqueles filhos, que por algum pecado, falha, ou alguma posição diferente saíram dos seus quadros, das suas fileiras. E agora distantes sentem-se excluídos, marginalizados, quando na verdade precisam sentir-se não condenados, mas amados?
"De fato estou compreendendo que Deus não faz distinção de pessoas". Atos 34. Oxalá, cada dia a Igreja seja mais próxima, mais humana, e mais parecida com o seu Mestre, porque não temerá em ser mais próxima, mais humana e mais parecida com os seus filhos.
"Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor". Jo 15,9.
Como é difícil falar de amor, como é difícil permanecer no amor, como é difícil amar como Jesus amou. O que significa amar como ele nos ama? No Antigo Testamento haviam 613 Mandamentos, mandamentos que muitas vezes se constituíram fardos pesados e difíceis de o povo carregar, assumir e vivenciar. Não foi à toa que Jesus foi resumindo, foi diminuindo, ficando só o amor, porque ele sabia que uma vez, este, sendo vivenciado e praticado, os demais estariam superados.
Ele nos amou com o amor que o Pai lhe amou. E foi este amor que o Pai lhe amou que ele entregou para nós. Aonde? Na Cruz. Eu falei na homilia passada que todo amor traz uma dor, uma morte, uma cruz. Ou seja, se quisermos aceitar a condição de amar, precisamos está preparados para não esperarmos recompensa, porque ela pode não vir. Ao contrário, esperemos dor, ingratidão, sofrimentos, e estes podem vir.
Hoje experienciamos um conjunto de regras e normas da Igreja, que creio, ser no sentido de purificar o modo cristão de cada um. Porém, há momentos, em que a aplicação das mesmas parece um medo de se chocar com o diferente, com o novo e com o rápido, propostos, e muitas vezes impostos pelos ventos do mundo pós-moderno. Então, ficamos num arcadismo, num anacronismo litúrgico, às vezes pastoral, clerical, porque não sabemos responder as perguntas e questionamentos deste momento. Nos fechar, é um modo de fugir do incômodo que a atual realidade nos faz.
Amar com o amor de Jesus não pode ser um canto emotivo, ou uma teoria morta e sem sentido, mas a capacidade e a coragem de enfrentar o momento presente, entender os seus sinais e as suas exigências, sugerir coisas novas, tomar decisões, arriscar, ousar, mesmo correndo o risco de errar. Não dá é pra ficar ciscando em torno de si com faz a galinha figurada por Leonardo Boff no seu livro "A Águia e a Galinha". Mas é preciso, voar, arriscar, mesmo correndo riscos, como diz Padre Zezinho na sua canção.
Amar com o amor de Jesus significa olhar para o irmão, para a irmã, e dizer para ela que Cristo a ama assim como ele é, como ela é. Não importando o culto, a religião, a cor, o sexo e a classe social a que pertence.
Porque ela, ele, estão acima de tudo isso, valem mais que tudo isso, valem mais que a religião, valem mais que a classe social, valem mais que a regra, valem mais que a lei. E toda vez em que a sociedade entendeu o contrário, toda vez que a sociedade leu diferente, toda vez que a própria religião entendeu diferente, certamente não estavam entendendo nem a lei e muito menos a pessoa. E quando elas entenderem, saberão que a pessoa vale mais do que a lei.
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